quinta-feira, 12 de novembro de 2015

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A arte e a ciência exata

Artigo Histórico
Angels Cry é o álbum de estreia da banda brasileira de progressive power metal Angra. Foi lançado em 1993 no Japão e em 1994 para o resto do mundo e gravado na Alemanha, no Kai Hansen Studios em Hamburgo. (wikipedia)

Criar, compor e desenvolver um trabalho na exata forma que reflita como queremos nos apresentar como artistas é, com certeza, a parte mais demorada e trabalhosa da idealização e produção de um novo álbum. A gravação propriamente dita de todos os instrumentos não é menos árdua e também demanda intensa dedicação, ainda mais em um processo solitário, já que se trata de um álbum de guitarra instrumental, sem a companhia dos colegas de banda. No entanto, ela toma muito menos tempo do que a etapa criativa.

Nesta vida digital moderna, em que temos a condição de criar uma maquete do que virá a ser o álbum, ou seja, uma demo sofisticada que soa praticamente finalizada – com todas as baterias programadas, teclados, melodias e solos feitos no computador –, surge uma não esperada dificuldade quando é chegada a hora crucial de registrar definitivamente a obra: a insolúvel questão de como reproduzir o momento tão especial da criação de uma arte, instante puramente intuitivo do desenvolvimento de uma composição, que havia sido registrada em forma de demo sem maiores pretensões técnicas, somente com intenções artísticas.

Devido às perfeitas condições de um bom estúdio, aparece a sensação de obrigatoriedade de que a música deva ficar ainda melhor, como se a tecnologia pudesse se sobrepor à criatividade. Essa etapa é curiosa, pois a demo, muitas vezes, soa melhor que o próprio álbum, no sentido de transmitir algo mais cativante, mais emocionante. Lembro-me dessa discussão ao registrar Angels Cry, do Angra, primeiro álbum da minha carreira. Em meio às gravações, nosso empresário ficou reticente por achar que a simples demo feita no Brasil tinha mais alma do que os registros que fazíamos naquele estúdio custoso, rodeado de tecnologia alemã de ponta.

As condições caseiras e sem esmero carregam a magia da criação, aquele momento de inspiração que aparece intermitentemente, nada fácil de reproduzir a qualquer hora. Ela traz em si o dia, a semana, o instante em que a energia estava totalmente focada na música, e nem tanto na performance ou nas técnicas de gravação. No estúdio, o dilema aparece: como reproduzir aquele momento incrível que fez com que a composição surgisse, mas de uma forma que, ao mesmo tempo, soe melhor, mais bem executado, mais limpo e claro, com total cuidado com os timbres, instrumentos e todas as inúmeras possibilidades que um estúdio profissional oferece. Talvez aí esteja a pedra no caminho. 

Quanto mais esmero e polimento, menos sentimento e alma. Apesar dos anos de experiência e de já ter gravado inúmeras vezes, encontrar o equilíbrio entre o polimento artificial e o verdadeiro é sempre angustiante e muito difícil. Diante das ferramentas digitais, fica fácil gravar de novo, corrigir somente mais uma notinha, deixar este ou aquele bend perfeitamente afinado, colocar no grid os atrasos ou afobações e assim por diante. São as imperfeições humanas que fazem com que a arte seja chamada de arte, enquanto a engenharia de estúdio, que elimina essas imperfeições, não passa de ciência exata.

Autor: Kiko Loureiro

Fonte: http://kikoloureiro.guitarplayer.com.br/

AGOSTO DE 2012


 

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